Será o hidrogênio "verde" uma salvação?
Há muito lero-lero sobre a produção e, sobretudo, exportação de hidrogênio "verde" (o "verde", aqui, vai entre aspas, porque não contabiliza os materiais utilizados em sua produção e transporte).
Ocorrem perdas em qualquer conversão de energia. No caso de fontes de eletricidade, são necessários os seguintes passos se consideradas as tecnologias já conhecidas: conversão da fonte primária em hidrogênio resulta em perda de 25%; depois dessa etapa, o hidrogênio tem que ser comprimido, e transportado, com perda adcional de 10%.
No próximo passo, podem-se considerar duas alternativas: veículos que dispõem de células de energia (fuel cells) para estocar o hidrogênio e veículos com baterias de lítio-ion.
O hidrogênio célula de conversão (fuel cell) tem uma perda adicional de 25%; finalmente, a energia contida na célula deve ser transformada em eletricidade novament, com um perda adicional de 2%., resulando numa disponibilidade final de 38%.da energia originalmente gerada.
No caso do carregamento de veículos com eletricidade transmitida pelas redes, pode-se assumir uma perda média de 10% da energia nessa etapa.
Esses cálculos podem ser encontrados aqui. Evidentemente, espera-se que ocorram avanços tecnológicos mas inevitavelmente essa fonte de energia só poderá ser exportada com o uso de subsídios. Tais subsídios, com o nome de green bonds ou qualquer outro com o qual se queira denominar sempre naufragado mercado de carbono, é quase via de regra pago à empresa que faz a substituição final, ou seja, em geral uma empresa européia.
Para o Brasil, não há chances de sobrar algum benefício significativo nesse périplo, já que a quase totalidade dos painéis solares é importada, o mesmo ocorrendo com as eólicas, em especial as offshore (que são as de maior potencial). Seria um tipo de "mineração de sol e de ventos", com total isenção de impostos em todas as etapas até o embarque final do hidrogênio para, por exemplo, mover um trem na Alemanha ou um carro na Holanda ou nos EUA.
Abaixo, uma tabela da Agência Internacional de Energia Renovável, mostrando que países estão colocando ou se compremeram a colocar mais recusos públicos no hidrogênio.
Note-se que Alemanha, Japão, França, e mesmo a Itália, além da China - colocam muito mais recursos financeiros no desenvolvimento de tecnologias do que em fundos que independem da tecnologia, como é o caso da Noruega.
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No atual momento, badalar a área industrial do Porto de Pecém como grande polo de exportação de hidrogênio verde ainda é só marketing político, já que as linhas de transmissão que chegam ao Porto necessitarão de significativo reforço, o que pode mudar de maneira decisiva a equação de custos. Além disso, a água para a hidrólise não é abundante no estado, como de um modo geral no nordeste do Brasil, e a dessalinização será imprescindível, resultando em consumo energético adicional.
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Segundo a Agência Internacional de Energia, em 2019 o maior número de veículos movidos a hidrogênio (não necessariamente verde) encontravam-se na China (8.000) e nos EUA (6.000), seguidos pela Japão com apenas 3.600, mas falando em ter 811.000 em 2030. Da mesma forma, a Holanda tem afirmado que deseja atingir 300.000 veículos movidos a células de combustível (sem nada dizer sobre a produção de hidrogênio verde, já que a produção pode se dar a partir do gás natural com redução da pegada carbônica). Considerados os preços atuais do gás, até agora apenas wishful thinking e marketing político.

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